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Conectivos escolhidos pela função e não pela lista decorada
Você decorou a lista. Ademais, outrossim, destarte, portanto, conquanto. Espalhou um em cada início de parágrafo e um no meio de cada período. O texto ficou com aparência de redação boa e, mesmo assim, a correção apontou problema de coesão. É frustrante e é comum, porque a lista decorada resolve o vocabulário e não resolve a lógica.
Conectivo não é palavra bonita. É sinal de trânsito entre duas ideias. Ele avisa ao leitor o que vem: mais do mesmo, o contrário, a causa, o resultado, um exemplo. Se você põe um sinal que não corresponde ao caminho, o leitor se perde, e o texto passa a parecer confuso mesmo quando as ideias são boas.
Primeiro a função, depois a palavra
Antes de escolher o conectivo, responda uma pergunta: que relação existe entre a frase que terminei e a que vou começar? A resposta é quase sempre uma de cinco. Escolhida a função, a palavra é consequência, e não o contrário.
- Adição — a ideia nova reforça a anterior: além disso, ademais, somado a isso, outro fator relevante.
- Oposição — a ideia nova contraria ou limita a anterior: entretanto, no entanto, contudo, por outro lado, embora.
- Causa — você vai explicar o motivo do que disse: visto que, uma vez que, dado que, em razão de.
- Conclusão ou consequência — você vai apresentar o resultado: portanto, logo, dessa forma, por conseguinte, diante disso.
- Exemplificação — você vai concretizar o que disse: por exemplo, a exemplo de, como demonstra, é o caso de.
Repare que não há conectivo neutro. Quando você escreve portanto, está prometendo que o que vem é resultado do que veio antes. Quando escreve entretanto, está prometendo contradição. Promessa não cumprida é o erro de coesão mais frequente nas redações que corrijo. E ele custa caro duas vezes: o leitor perde o fio do raciocínio e o texto passa a impressão de que o autor não controla a própria argumentação, ainda que as ideias estejam certas.
Os erros que mais aparecem
- Portanto sem causa antes — o parágrafo apresentou dados soltos e concluiu algo que não decorre deles.
- Entretanto entre ideias que concordam — as duas frases dizem a mesma coisa e o conectivo anuncia um choque que não existe.
- Ademais em todo parágrafo — repetição vira tique e denuncia que a lista foi decorada, não pensada.
- Outrossim e destarte fora de lugar — palavra rara no meio de um texto simples soa postiça e costuma vir com sentido trocado.
- Conectivo dobrado — mas porém, porém contudo, entretanto no entanto na mesma frase.
- Todo parágrafo começando por conectivo — a emenda nem sempre precisa de placa no começo.
Esses erros têm uma raiz comum: o conectivo foi escolhido antes de a ideia existir. O aluno sabe que precisa ligar e escolhe a palavra que lembra. Depois escreve a frase tentando caber nela. O caminho certo é o inverso — escreva a ideia, leia a emenda e só então decida a placa. Isso custa três segundos por parágrafo e elimina quase toda a lista acima.
Variar sem soar artificial
Variar não é caçar sinônimo raro. É mudar a forma da ligação. O mesmo sentido de oposição pode aparecer como conectivo no início, como conjunção no meio da frase, como oração reduzida ou como um corte seco em duas frases curtas. Quem domina isso escreve um texto que soa natural e continua coeso.
- Mude a posição — o conectivo pode entrar depois do sujeito, entre vírgulas, em vez de abrir a frase.
- Use a retomada lexical — repetir o tema com outra palavra já amarra o parágrafo sem precisar de conectivo.
- Troque por estrutura — embora com verbo no lugar de no entanto, por exemplo, muda o ritmo sem mudar o sentido.
- Corte — às vezes duas frases curtas, na ordem certa, criam a relação sozinhas.
Um bom exercício: pegue uma redação sua já pronta e sublinhe todos os conectivos. Se mais da metade estiver no início de período, você tem um problema de ritmo. Reescreva três deles em outra posição e leia em voz alta. O texto quase sempre melhora sem que uma única ideia tenha mudado.
A coesão que ninguém repara
Conectivo é só metade do trabalho. A outra metade é a retomada: pronome, sinônimo e palavra mais genérica que substituem o que já foi dito. Um texto que repete violência urbana onze vezes é coeso na lógica e pobre na superfície. Trocar por o problema, esse cenário, tal prática ou a questão resolve, desde que a substituição não crie dúvida sobre a que você se refere.
O teste final é a leitura em voz alta, de ponta a ponta, sem pausa. Onde você tropeça, há uma emenda malfeita. Onde você precisa voltar para entender a quem o isso se refere, há uma retomada ambígua. Corrigir esses dois pontos costuma render mais do que trocar dez palavras por sinônimos difíceis.
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