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Proposta de intervenção completa em cinco elementos
O último parágrafo costuma ser escrito com o relógio na cabeça e as mãos cansadas. Sai assim: é preciso que o governo invista em educação e conscientize a população, para que o problema seja resolvido. Parece uma solução. Não é. É um desejo, e desejo não pontua na competência que avalia a proposta de intervenção.
A pergunta que o corretor faz é simples e implacável: com isso escrito no papel, alguém conseguiria executar a ação amanhã? Se ninguém sabe quem faz, o que faz, por qual meio e com que objetivo, a proposta é vaga. E proposta vaga vale pouco, mesmo quando o resto do texto está bom.
Por que a proposta genérica não pontua
Conscientizar a população, investir em educação, criar políticas públicas e fiscalizar com rigor são frases que cabem em qualquer tema. Servem para violência, para analfabetismo, para descarte de lixo, para saúde mental. Justamente por caberem em tudo, não respondem a nada. Elas não mostram que você entendeu o problema específico daquela prova. Pior: revelam que o parágrafo foi escrito antes de você saber qual era o tema.
Um bom sinal de alerta: se a sua proposta continuaria fazendo sentido caso o tema fosse outro, ela está genérica. Troque o tema mentalmente e releia o parágrafo. Se nada precisar mudar, reescreva. O mesmo vale para o verbo. Investir, promover, incentivar e trabalhar são verbos que descrevem intenção. Criar, ampliar, capacitar, incluir e fiscalizar descrevem ação, porque é possível imaginar alguém executando.
Os cinco elementos
- Agente — quem executa. Ministério, secretaria estadual de educação, escolas da rede pública, veículos de imprensa, organizações da sociedade civil, empresas do setor.
- Ação — o que exatamente será feito. Um verbo concreto: criar, ampliar, incluir, capacitar, obrigar, oferecer.
- Meio — como a ação acontece. Verba de fundo específico, campanha em horário obrigatório de TV e redes, alteração de grade curricular, convênio, aplicativo, formação continuada de professores.
- Finalidade — para quê. O efeito pretendido sobre o problema, ligado ao que você argumentou no texto.
- Detalhamento — o acréscimo que especifica um dos elementos acima. Onde, com que frequência, para qual público, com qual conteúdo.
Detalhamento não é um sexto item solto. É a explicação de um dos quatro anteriores. Se o agente é a secretaria de educação, o detalhamento pode dizer em quais séries; se o meio é uma campanha, pode dizer em que plataformas e para qual faixa etária. Basta detalhar um elemento, com clareza, e não todos de uma vez. Detalhar tudo, aliás, costuma estourar o espaço e deixar a conclusão espremida, sem o fecho que amarra o texto.
Escolher o agente certo
Escrever governo é vago porque existem três níveis e dezenas de órgãos. Ministério da Saúde, secretaria municipal de assistência social, conselho tutelar, escolas da rede básica, sindicatos, universidades públicas, imprensa: cada um tem competência para coisas diferentes. Escolha o que realmente poderia fazer aquilo.
- Problema de política pública ampla — órgão federal ou estadual, porque envolve orçamento e alcance nacional.
- Problema de execução local — prefeitura, secretaria municipal, unidade básica de saúde, escola.
- Problema de cultura e informação — mídia, plataformas digitais, campanhas, produção cultural.
- Problema de formação — escolas e universidades, com currículo e capacitação de profissionais.
Também vale combinar. Uma proposta com dois agentes bem escolhidos, cada um com sua função, costuma ficar mais forte que uma proposta com um agente genérico. Só não transforme o parágrafo em lista de órgãos: dois já bastam, e cada um precisa vir com sua própria ação. Órgão citado sem tarefa é enfeite, igual a repertório solto no desenvolvimento.
O limite que anula tudo
Existe uma linha que não se cruza: a proposta precisa respeitar os direitos humanos. Solução que sugere violência, castigo físico, exclusão de um grupo, censura, esterilização, internação forçada em massa ou supressão de direitos derruba a competência inteira, por melhor que esteja o restante do texto.
Na pressa, isso escapa. O aluno quer parecer firme e escreve algo como punir severamente ou retirar da convivência. Antes de fechar o texto, releia o último parágrafo com uma pergunta na cabeça: essa medida trata alguém como menos digno que os outros? Se a resposta for talvez, reescreva. Firmeza em redação vem da precisão da medida, não da dureza dela. Uma proposta bem detalhada soa muito mais competente que uma proposta agressiva.
Por fim, a proposta não pode ser a primeira vez que o assunto aparece. Ela precisa responder ao problema que você desenvolveu nos parágrafos anteriores. Se você argumentou sobre desinformação e a proposta fala de infraestrutura, o texto se parte ao meio. Conclusão boa é aquela que qualquer leitor prevê pelo caminho — e ainda assim vem mais detalhada do que ele imaginava.
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